Newsletter de Junho


. BLOOM SATIVUM .

JUNHO

"O Sol de Junho amadura tudo.”

Este mês chegamos tarde mas temos a desculpa de estarmos numa altura de rebuliço que até põe os Santos a dançar... É uma altura de celebração que nos dá todas as razões e mais algumas de aproveitar os dias longos de Sol que tudo vai amadurecendo. Andamos a aprender a escrever quando as palavras veem e por isso aqui estamos nós: tarde e a boas horas!

Estamos numa época de movimento intenso, nós animais, as plantas e até as pedras sabemos que o Sol nos energiza e por isso as razões para parar parecem ser poucas. Com tanta luz solar a seratonina inunda-nos o corpo e faz-nos sentir hiper motivados. Esta energia masculina de concretização toma conta de nós mas há sempre aquele momento em que tudo pára. Este mês o nosso olhar fica preso nas grandes flores efémeras da onagra, que tal qual balão de papel elevado pelo ar quente, parece que leva os nossos desejos mais longe, para um lugar que ainda não conhecemos mas que confiamos ser o certo.

O espaço solene do esperar que o balão, segurado pelas muitas mãos, se encha, ganhe volume e levante devagarinho continua a ensinar o que é na essência o Solstício de Verão.

Mesmo sem o risco dos balões podemos alcançar este sentimento, a pausa e a intenção ajuda os momentos a ficarem imersos na fibra de que somos feitos e por isso são chamados de celebração...

E é já hoje, neste dia mais longo do ano, que a presença do Sol é bem sentida e vai bem mais além da imagem fálica dos alhos-porros ou dos sóis feitos de papel, das pequenas lanternas luminosas ou das inúmeras brasas que são tão comuns nos Santos populares. Apesar de ser chamado de António, João e Pedro não há nada que nos distraia da vontade de prolongar o Sol, a intensidade masculina tão necessária à realização.

A presença do Sol neste dia mais longo do ano é tão forte que até a nossa própria sombra faz desaparecer mas, ela existe e terá de ser confrontada, por isso há que transportar este calor para bem dentro de nós, já que essa grande fonte de calor e inspiração vai começar a sua dança descendente e os dias a partir do Solstício de Verão começarão a encurtar.

É quase como a martelada na noite de São João, um acordar para reavaliarmos a nossa situação nesta altura de amadurecimento: Quais são os meus dons? Como me relaciono com os outros? O que posso doar de mim à comunidade a que pertenço? São perguntas como estas que naturalmente surgem nesta altura do ano e às quais devemos dedicar um espaço no meio do turbilhão de actividade de Verão.

É a altura do ano em que temos sonhos mais lúcidos e que podemos aceder à nossa intuição de uma forma mais desenvolta, basta adormecermos com as perguntas e prestarmos alguns minutos do acordar a tentarmos recordar os sonhos que possamos ter tido nessa noite...

E claro, não há São João sem os belos manjericos - Ocimum minimum - que são um tipo de manjericão ou basílico de folhas mais pequenas e que são plantas bastantes sensíveis daí andarem ligadas à poesia. O seu óleo é usado em aromaterapia e não é por coincidência que tem um efeito semelhante ao da exposição solar em nós humanos pois é um tónico nervoso com efeito anti-depressivo que nos ajuda a clarificar e fortalecer a mente. O Manjerico abre caminho para que as respostas às nossas perguntas se tornem visíveis, porque maior parte das vezes elas estão mesmo a sobrevoar a nossa cabeça, bem lá no alto!

"Quando as pessoas olham para as nuvens, elas não veem a sua forma real, que não tem forma alguma ou tem todas as formas, porque elas mudam constantemente.

Elas veem aquilo que o seu coração anseia."

José Eduardo Agualusa

Plantas que se fazem Ouvir

Há uma planta que presiste em estar connosco e mesmo que mude de traje durante o ano a proximidade com que a devemos cuidar não varia. É uma planta modesta que não se importa de dividir o espaço com outras plantas e que gosta de cobrir a Mãe Terra em forma de carpete delicada...

Achillea millefolium - o Milefólio

Numa temporada de reverência à energia masculina determinada, que é segura mas ao mesmo tempo sensível não poderiamos deixar de dar voz ao Milefólio. O seu nome traz consigo a força do guerreiro Aquiles, que em criança foi submergido numa poção de milefólio, todo o seu corpo ficou protegido com a excepção do calcanhar pelo qual foi agarrado e esse passou a ser o seu ponto fraco. Segundo as lendas este herói tranportava sempre consigo a planta pulverizada para aplicar em feridas e nos guerreiros feridos, excepto no dia em que foi trespassado com uma flecha exactamente no calcanhar e não tinha o seu aliado verde para o ajudar.

Esta planta espontânea nativa é conhecida também por Erva de São João ou Macela de São João por escolher esta altura do ano para florescer. Também vive na memória popular com o nome de Erva-dos-militares, que nos dias de hoje seria mais dos militantes pois para além de ajudar nos cortes e feridas violentas de sangramento excessivo é também uma planta que nos protege de formas de expressão negativas e reacções emotivas que podem fazer-nos dispersar a nossa energia e desfocar-nos do que é mais importante.

Também é chamada de Erva-dos-Carpinteiros pois protege estes fazedores de realidade dos inevitáveis cortes e farpas que se possam alojar nas mãos. E há uma razão para aqui estar, tão forte mas mais ancestral que todas as outras que é o facto de pertencer à família que lhe é originária: as Asteraceae ou a família dos Aster (astros) que naturalmente nos remetem ao Sol pela semelhança que as flores compostas têm com este astro.


A humildade emplumada

Há sempre aquela planta que nos faz sentir em casa por alguma razão especial, esta é a que nos traz o lar no toque. É uma sensibilidade que parece animada, parece que nos faz cócegas ao mesmo tempo que nos afaga, uma actividade muito próxima à experiência humana que só as mil folhas poderiam proporcionar.

As modestas folhas compostas e tripinadas fazem lembrar o sistema circulatório com todas as suas artérias, veias e capilares dispostas numa forma fractal que não pára de se repetir dentro de si mesmo.

Esta familiaridade de padrão remete-nos para a afinidade medicinal que esta planta tem com o sangue e os distúrbios relacionados com o sistema circulatório: seja no caso de sangramento nasal, hemorróidas que libertam sangue, ao fígado inflamado ou hepatite, todas as desarmonias femininas ligadas à inflamação que se mostram em formas de sangramento vermelho-vivo ou formação de massas duras como quistos e fibróides ou em forma de "levanta a moral" em caso de prolapsos uterinos, cólicas menstruais e amenorreia - ausência de menstruação.

Uma das formas mais tradicionais do uso das flores do Milefólio é o uso como diaforético, uma das razões que nos faz secar as flores para termos a sua medicina durante o Outono e Inverno. Esta capacidade é reflectida na forma como esta planta acelera a circulação e faz com que a temperatura corporal aumente significativamente. Est acção é valiosa no caso de febres que em si são uma resposta natural de criar um habitat interno que seja inabitável às bactérias ou vírus que nos atacam, como auxiliador neste processo o Milefólio ajuda a rapidamente chegar à temperatura desejada e "suar a febre" para que nos sentimos melhor depressa. Tradicionalmente a fórmula para este fim junta as flores de Milefólio, Sabugueiro e as folhas de Menta para atingir uma função mais equilibrada mas o Milefólio sozinho consegue também levar-nos pelo caminho da cura nestas situações.

No jardim e na horta a proximidade do Milefólio faz com que as plantas desenvolvam mais resistência a doenças já que ajuda no desenvolvimento de proteínas vegetais, absorção de minerais e exponência a produção de óleos essenciais nas plantas vizinhas.

É um elemento fundamental em agroecologia pois basta umas folhas na pilha de composto para activar o processo de compostagem. Pode também ser usado em forma de chorume fertilizante que é muito rico em potássio e enxofre. Prepara-se da mesma forma como o chorume de urtigas e dilui-se na mesma percentagem.

Um dos usos do Milefólio que desperta mais curiosidade é o uso das varas ou caules desta planta na arte divinatória oriental denominada de I Ching. São usadas 50 varas secas que ao serem divididas de várias formas específicas invocam as harmonias do Céu, da Terra e dos Humanos para chegar ao resultado de um hexagrama que nos ditará a mensagem do oráculo que nos está destinada.

Seja como mera companhante verdejante, como aliada na previsão do futuro ou como ajudante em tempos sangrentos esta planta é um dos tesouros que podemos encontrar enquanto passeamos num parque, num caminho esquecido ou mesmo no vaso onde achávamos que só tinhamos uma roseira plantada. De qualquer das formas é uma honra o termos por perto e agradecemos-te Milefólio por nos fazeres lembrar que o Sol brilha todo o ano.

Boas Celebrações de Solstício e um Feliz Alongar de Noites!

aqui fica o original: http://shoutout.wix.com/so/1LoRICRi

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